Quando estava na cidade tinha por mania pegar os ônibus que demoravam mais tempo pra chegar ao destino. Gostava mesmo era de ir curtindo a paisagem do percurso. Fosse feia ou bonita, qualquer paisagem externa lhe interessava. Os mínimos detalhes prendiam sua atenção, distraindo da dor, fazendo o tempo correr macio. Quando o ônibus se demorava nalgum ponto, ela detinha o olhar nas pessoas que esperavam no ponto. Procurava enxergar em cada rosto traços do seu próprio sofrimento, da sua ansiedade...Ela via a cruz invisível que cada um carrega nos ombros e, de saber que todo mundo trazia uma cruz, já não se sentia tão diferente. O ônibus lhe trazia a impressão do transitório...e cada rosto sofrido lhe trazia a sensação de unidade. Já não estava só, já não era a única que sofria. Então pra quê gemer? Então sorria. Timidamente sorria.
Olanzapinela
sexta-feira, 30 de julho de 2010
sábado, 10 de julho de 2010
Manhã fria. A estranha lembrança do antigo vício: cigarros antes de deitar. Cigarros e drops de cereja mentol. Nenhuma boa recordação de amor. Ela tinha tatuadas todas as desilusões. Uma a uma milimetricamente gravadas na pele d'alma...Olhava pela janela e o que via não era a paisagem de agora: o terreiro do vizinho, os telhados de cor crua das outras casas, os varais com roupas-bandeirolas de um São João que passou...Olhava pela janela e lhe vinham lembranças de tanta entrega e nenhuma recompensa. Ou então recompensas vindas dos lugares não esperados, não desejados... Ela sentia esse buraco em sua existência de quase 3 décadas sobre a Terra nesta encarnação. Esse buraco era não poder corresponder a quem lhe dava sem que ela pedisse, ao passo que a quem ela tudo dava de si, pouco importava que ainda estivesse viva. Sabia que mais esta dor ia passar e outras viriam parar no seu coração quente e doído. Agora estava esgotada por dentro. Cigarros ela não queria mais, que cigarro dá câncer e acaba com a pele e os dentes. Ela prezava muito aqueles dentes. Se orgulhava de te-los todos guardados pelas gengivas sãs. E moderava o palavreado nos momentos de fúria. Em troca ganhou uma gastrite. Mas gastrite é pra dentro, ninguém vê. Dente quebrado ou faltando todo mundo vê. E isso ela não queria. Queria uma dor só sua. Uma dor íntima. Já que não podia escolher não ter dor, escolhia ter uma dor que só ela conhecesse. Uma dor que o corpo também sentisse. Porque a alma detesta doer sozinha...
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Da salsicha aferventada o aroma de mais um sacrifício canino pairava pelo apartamento. Faltava cozinhar o breve macarrão instantâneo. Faltava por as coisas no lugar. A bolsa sobre a mesa, espalhando micróbios de transmitir tanta doença. Tanta doença que ela não sabia se ia viver pra adoecer tanto assim. O telefone só toca na hora errada: quando está dormindo ou tomando banho ou...O telefone que nunca traz a voz do seu amor. Não sabia o que era ser correspondida no amor, embora soubesse bem o que era amar. E agora que conseguia levar uma vidinha até normal...Pagando as contas, mantendo a casa em ordem. Mas não seguia moda. Escolhia do guarda roupa as peças mais fáceis de vestir, o calçado mais confortável. Não era embonecada, mas tinha seu charme. Mesmo assim ninguém a queria. Quem sabe agora? O comprimido toda noite, na hora certa, lhe ajudava a conter o riso e o choro. O comprimido da acomodação. Já não via flores em vasos de quadros a murchar por falta d'água. Já não era perseguida por homens encapuzados. Nem recebia mensagens subliminares vindas do noticiário televisivo. Tudo estava conforme. Normal. O comprimido prometia estabilizar sua situação, trazê-la de volta à superfície terrestre. Ela, que já atingira as alturas com o poder daquela sua mente indomável...Ela, que podia voar e fazer milagres. Agora não conseguia ser super. Graças ao comprimido, era mais uma entre tantas. Normal. Com o comprimido noturno, perdia sua natureza de pássaro. Sua leveza de pássaro que alcança as alturas celestiais estava interrompida pelo poder da medicina. O mundo dos homens comuns não compreende e não aceita que ela voe tão alto. Que rasgue o horizonte do senso comum com seu sensível e abstrato modo de sentir, de ver...O mundo em que ela vive não é seu reino, é sua prisão. Ela, sem nada dizer, odeia este mundo hipócrita. Ela vai detestando em silêncio esse modo normal de viver, onde se sente como no RG. Mais um número. Um dado estatístico. Mais uma fêmea da espécie. Enquanto andava na companhia da loucura, não conhecia impotência. Todas as possibilidades nas suas mãos. Tanto céu de brigadeiro, tanta luz na linha do horizonte a orientar seu voo livre...E tudo era uma questão de linguagem. O louco tem linguagem própria. Lógica própria. E nela a loucura era até mansa...loucura doce. Ficava tão mais meiga, tão mais serena quando louca. Tão mais anjo. E de sentir a dor do próximo com mais força que a sua própria dor, trazia um rosto beato. Terços e escapulários pendurados. Roupas sempre claras. Fitinhas do Senhor do Bonfim amarradas aos punhos, com tantos pedidos de sonhos por realizar. E votos de pobreza e castidade no coração que só sabia amar o Menino Jesus.
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