sábado, 10 de julho de 2010

Manhã fria. A estranha lembrança do antigo vício: cigarros antes de deitar. Cigarros e drops de cereja mentol. Nenhuma boa recordação de amor. Ela tinha tatuadas todas as desilusões. Uma a uma milimetricamente gravadas na pele d'alma...Olhava pela janela e o que via não era a paisagem de agora: o terreiro do vizinho, os telhados de cor crua das outras casas, os varais com roupas-bandeirolas de um São João que passou...Olhava pela janela e lhe vinham lembranças de tanta entrega e nenhuma recompensa. Ou então recompensas vindas dos lugares não esperados, não desejados... Ela sentia esse buraco em sua existência de quase 3 décadas sobre a Terra nesta encarnação. Esse buraco era não poder corresponder a quem lhe dava sem que ela pedisse, ao passo que a quem ela tudo dava de si, pouco importava que ainda estivesse viva. Sabia que mais esta dor ia passar e outras viriam parar no seu coração quente e doído. Agora estava esgotada por dentro. Cigarros ela não queria mais, que cigarro dá câncer e acaba com a pele e os dentes. Ela prezava muito aqueles dentes. Se orgulhava de te-los todos guardados pelas gengivas sãs. E moderava o palavreado nos momentos de fúria. Em troca ganhou uma gastrite. Mas gastrite é pra dentro, ninguém vê. Dente quebrado ou faltando todo mundo vê. E isso ela não queria. Queria uma dor só sua. Uma dor íntima. Já que não podia escolher não ter dor, escolhia ter uma dor que só ela conhecesse. Uma dor que o corpo também sentisse. Porque a alma detesta doer sozinha...

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