Da salsicha aferventada o aroma de mais um sacrifício canino pairava pelo apartamento. Faltava cozinhar o breve macarrão instantâneo. Faltava por as coisas no lugar. A bolsa sobre a mesa, espalhando micróbios de transmitir tanta doença. Tanta doença que ela não sabia se ia viver pra adoecer tanto assim. O telefone só toca na hora errada: quando está dormindo ou tomando banho ou...O telefone que nunca traz a voz do seu amor. Não sabia o que era ser correspondida no amor, embora soubesse bem o que era amar. E agora que conseguia levar uma vidinha até normal...Pagando as contas, mantendo a casa em ordem. Mas não seguia moda. Escolhia do guarda roupa as peças mais fáceis de vestir, o calçado mais confortável. Não era embonecada, mas tinha seu charme. Mesmo assim ninguém a queria. Quem sabe agora? O comprimido toda noite, na hora certa, lhe ajudava a conter o riso e o choro. O comprimido da acomodação. Já não via flores em vasos de quadros a murchar por falta d'água. Já não era perseguida por homens encapuzados. Nem recebia mensagens subliminares vindas do noticiário televisivo. Tudo estava conforme. Normal. O comprimido prometia estabilizar sua situação, trazê-la de volta à superfície terrestre. Ela, que já atingira as alturas com o poder daquela sua mente indomável...Ela, que podia voar e fazer milagres. Agora não conseguia ser super. Graças ao comprimido, era mais uma entre tantas. Normal. Com o comprimido noturno, perdia sua natureza de pássaro. Sua leveza de pássaro que alcança as alturas celestiais estava interrompida pelo poder da medicina. O mundo dos homens comuns não compreende e não aceita que ela voe tão alto. Que rasgue o horizonte do senso comum com seu sensível e abstrato modo de sentir, de ver...O mundo em que ela vive não é seu reino, é sua prisão. Ela, sem nada dizer, odeia este mundo hipócrita. Ela vai detestando em silêncio esse modo normal de viver, onde se sente como no RG. Mais um número. Um dado estatístico. Mais uma fêmea da espécie. Enquanto andava na companhia da loucura, não conhecia impotência. Todas as possibilidades nas suas mãos. Tanto céu de brigadeiro, tanta luz na linha do horizonte a orientar seu voo livre...E tudo era uma questão de linguagem. O louco tem linguagem própria. Lógica própria. E nela a loucura era até mansa...loucura doce. Ficava tão mais meiga, tão mais serena quando louca. Tão mais anjo. E de sentir a dor do próximo com mais força que a sua própria dor, trazia um rosto beato. Terços e escapulários pendurados. Roupas sempre claras. Fitinhas do Senhor do Bonfim amarradas aos punhos, com tantos pedidos de sonhos por realizar. E votos de pobreza e castidade no coração que só sabia amar o Menino Jesus.
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